quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Querida Alice:

Hoje, olho para a folha, e não a imagino mais do que branca, lisa, solta como vento. Como tu, livre. És livre, Alice, e eu não. Fiquei presa a tudo e a nada. Ao tudo que fomos juntas, e ao nada que não nos deram tempo para ser.
Irmã, hoje voltei a sentir aquela sensação estranha de que já te havia falado antes. Parece que, por vezes, sinto os teus braços cobrirem-me e protegerem-me, e a tua voz chamar por mim. E não sei, sequer, se esta é uma boa ou má sensação. O que é? és tu, Alice?
Perdoa-me se enlouqueço; apenas não me dão tempo para aprender a viver sem ti. Mas, haverá tempo que mo possa ensinar?
Além disso, hoje, voltou a estar Sol. Já tinha saudades de sentir os raios quentes fazerem a minha pele estalar, misturando-se com a brisa fria. Sentia saudade, mas não tanta saudade como sinto de ti.
'Mana', porque não nos deram tempo de crescermos juntas, como tanto queriamos? Porquê? E porque não nos deixarem mais meros minutos para podermos continuar a viver de mãos dadas, como era o costume?
Hoje sentei-me com a mamã na cama, e ela disse-me que, quando não podia ficar em casa, eras tu quem tratava de mim quando eu era mais pequena, assim como tu também foste. Então, embalavas-me quando o sol se estava a pôr cantando-me baixinho uma canção? Vestias-me com aqueles vestidos bonitos com que eu apareço nas fotografias? Penteavas os meus caracóis acastanhados?
Volta Alice, volta para mim. Nunca achei que nada me pudesse fazer tanta falta como o teu simples silêncio ao dormirmos.
Mas dormiamos, juntas, e eu tenho mais do que saudades do teu calor, e dos miminhos que me davas antes da Lua adormecer também.

Com amor,
da tua irmã



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